O que faz uma terapeuta tântrica?
Uma série de interrogações surgem na cabeça do leigo que, quando não se informa, imagina respostas tenebrosas! Esse artigo busca esclarecer um pouco alguns pontos e desmistificar a imagem do Tantra e a figura do seu terapeuta.
E, para começar, deixo claro o que um terapeuta tântrico não faz: sexo. Se você comparecer a uma sessão de terapia tântrica esperando por isso, sairá muito frustrado. Da mesma forma, se receber esse tipo de abordagem da pessoa que o atender, saiba que você não esteve diante de um profissional sério (sequer diante de um profissional).
O papel do terapeuta tântrico deve ser o de desprogramar conceitos, de quebrar paradigmas e limpar seu corpo dos condicionamentos que ele tenha a respeito dos estímulos que recebe.
O terapeuta tântrico vai trabalhar com a sua sexualidade, não com sexo.

A massagem tântrica tem propósito de trazer novas sensações e ressignificar o prazer sentido pelo corpo.
Em uma primeira etapa, a massagem tântrica busca espalhar a sensação orgástica por todo o organismo, encadeando nesse processo agrupamentos musculares nunca antes utilizados no orgasmo.
Sim, é possível sentir o orgasmo – essa reação bioelétrica – em músculos do corpo todo, não apenas nos genitais.
Esse encadeamento ajuda a intensificar, prolongar e expandir o efeito terapêutico do orgasmo.
A partir daí a massagem pode ser usada para tonificar e fortalecer os músculos genitais, possibilitando-os sustentar níveis maiores de bioenergia. Um dos principais motivos das relações durarem tão pouco, ou gerarem orgasmos sem intensidade são os músculos sexuais hipotônicos.
Esse desenvolvimento tem se mostrado muito útil no tratamento de várias disfunções sexuais, tanto masculinas como femininas– anorgasmia, problemas de ereção, ejaculação precoce, dispareunia, entre outros.
Não apenas isso, a prática dessa terapêutica – por mexer com a bioquímica do cérebro, produção hormonal e outros aspectos da sensibilidade – pode levar a pessoa a outros estados de consciência, ou seja, apresenta caráter meditativo.
Texto (site Acidez Feminina)
TIPOS DE CIPÓ
Em um contexto urbano, a AYAHUASCA caracteriza-se como uma “Infusão vegetal psicoativa” da Amazônia, preparada por cocção – ou decocção – das cascas e caules do cipó BANISTERIOPSIS CAAPI (conhecido por nomes como “Jagube”, “mariri, “caapi, “huni”) junto com outras plantas componentes. A maioria das formulações de Ayahuasca utiliza uma das espécies do cipó banisteriopsis – tendo duas principais variações, o Tucunacá e o Caupuri, com inúmeras sinonímias, como ouri...nho pajezinho, quebrador, associado às folhas do arbusto Psichotria Viridis (conhecida como “Chacrona”, “Rainha”, “Kawa”) no preparo da beberagem. Estima-se que sejam utilizadas 98 espécies de 39 famílias de plantas como complementos à Ayahuasca conforme a especificidade do preparo.
A tradição indígena conhece outras variedades de cipó além das duas principais citadas anteriormente. Para os Huni kuin, existem diversas espécies de cipó utilizados do preparo da beberagem HUNI PAE. A partir de relatos e explicações foi compilado aproximadamente 11 espécies diferentes, as quais serão listadas abaixo com algumas informações recebidas sobre elas. Percebe-se que um dos critérios principais de diferenciação dos cipós ( os quais muitas vezes na floresta a olho nu são muito similares) são as modalidades de “miração” que cada uma proporciona:
BACAHUNI: Cipó do Peixe, teria surgido da “perna” de Yube Inu na história de surgimento do HUni. Foi descrito como possuindo as visões, “mirações” igual a “lua cheia”, delicadas, “clarinhas”, vindo luz clara.

NIHUNI: Cipó da Floresta, mirações vêm claras em alguns momentos, e em outros “fecham”. Como seu nome sentencia, ele é “da floresta”, portanto “vai te limpar, não tem jeito não”.
SHAWÃHUNI: Cipó arara. Suas mirações são fortes e longas, e costumam ser alaranjadas, vermelhas, com cor de sangue. Segundo relato sobre este cipó “tá limpando vendo sangue, limpando”.
SHANEHUNI: Cipó do “pássaro azulão”. Dentro das mirações, a cor predominante é o “roxo”.
PATIHUNI: É um arbusto com florzinhas bonitas. Suas mirações são cor de roda, cor do arco-iris (cores variadas)
TUCUHUNI: Variedade de cipó conhecido por ter seu efeito “mais forte” que os demais. É delicado e difícil de encontrar, localizando-se mais longe dentro da floresta. Em cada “palma” possui um nó, e parece ser o conhecido como caupuri em outros contextos.
BANAHUNI: Quando não é nativo, e sim de cultivo, possui mirações fortes com cores diversificadas, porém com pouca duração (passa rápido).
KEYAHUNI: Não existe mais, ficou na história.
BASAHUNI: é citado em músicas, mas não existe relatos a cerca do mesmo.
SHANKAHUNI: também é outro tipo de cipó citado em músicas, mas não existe relatos a cerca do mesmo.
DUNU WANÃ ISSUM: foi citado em uma das entrevistas.


Texto de Camila Silva Ribeiro.
Haux Haux Haux
Este é um assunto importante e delicado, que infelizmente é bastante menosprezado na atualidade. Ao que parece, os yogis do século XXI estão tão ocupados nos seus misteres, que esqueceram ou passaram a considerar desnecessário deter-se em detalhes aparentemente insignificantes como não mentir ou cultivar o contentamento.

Se você não tiver tempo ou disposição para agir conforme a ética do Yoga, tampouco terá tempo nem atitude para praticá-lo. Por outro lado, é desconfortável falar sobre estes assuntos, porque ninguém gosta de reconhecer-se como mentiroso ou ladrão, para dar os exemplos mais desconfortáveis. Ao invés de ver quem vai atirar a primeira pedra, lembremos que yama e niyama são os dois primeiros passos da caminhada, condição indispensável para que a prática dê resultados concretos. 



Yama significa controle ou domínio. É o pontapé inicial. Os yamas são as cinco proscrições:
não usar nenhum tipo de violência (ahimsā);
falar a verdade (satya);
não roubar (asteya);
 não desvirtuar a sexualidade (brahmācārya);
e não se apegar (aparigrāha).
 Esses refreamentos pretendem purificar o yogin, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, órgãos sexuais e excretores.

Niyama, as prescrições psicofísicas, compreendem cinco disciplinas:
 a purificação (śaucan);
 o contentamento (santoṣa);
 a austeridade ou o esforço sobre si próprio (tapas);
 o estudo das escrituras do Yogae de si próprio (svādhyāya);
e a consagração a , o arquétipo do yogi perfeito (Īśvara pranidhāṇa).

Essas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção (jñānendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal do praticante.

Ahimsā, a não-violência, entende-se como não matar, não agredir, nem causar nenhum tipo de dor a nenhum ser vivo. Os outros quatro yamas são corolários, conseqüências naturais da não-violência. Vyāsa, comentando o sūtra II:30 de Patañjali, diz:
"Ahimsā é abster-se de ferir qualquer ser, a qualquer momento e de qualquer maneira. A verdade e as outras formas de refreamento e observâncias se baseiam no espírito da não-violência." 
Satya, a verdade, consiste em fazer coincidir pensamentos, palavras e atos, o que deve entender-se como evitar a falsidade em todas suas formas, tanto nas relações do yogin com as pessoas quanto dele consigo próprio. Satya é procurar sempre a verdade, independentemente de aonde essa busca possa nos levar. Entretanto, Vyāsa esclarece:
A palavra pronunciada com o propósito de comunicar o próprio pensamento a outrem é verdadeira, desde que não engane ou confunda. A palavra deve pronunciar-se não para ferir, mas para beneficiar. Porque, se ferir, não produzirá harmonia, apenas sofrimento.
Noutras palavras: a verdade, por verdadeira que seja, não dói.
Asteya significa não roubar, não cobiçar ou invejar bens ou conquistas de outrem. Não é apenas não roubar, mas eliminar totalmente o impulso de apoderar-se de objetos (ou idéias) alheios. Vyāsa ensina:
"Steya significa pegar incorretamente coisas pertencentes a outrem. Asteya é abstenção dessas tendências, mesmo que em pensamento." 
Brahmācārya, o não desvirtuamento da sexualidade, pode interpretar-se tanto como total e absoluta abstinência sexual quanto não dissipação da energia através do orgasmo. Em ambos os casos pretende-se, embora por meios diferentes, refrear a força geradora, a fim de entesourá-la para a evolução no sādhana.
"Emprega-se hoje a palavra brahmācārya com o significado de casto, mas a castidade é uma noção ambígua. Nenhum homem é casto, já que de uma maneira ou de outra emite periodicamente seu sêmen, nem que seja dormindo. O que é proibido ao brahmācārin não são as práticas sexuais, são os vínculos e particularmente os atos reprodutores, que, por suas conseqüências, o ligam à sociedade, privando-o da sua liberdade. Obrahmācārin não deve ter relacionamentos que impliquem riscos de concepção. Deve ser, de qualquer modo, econômico com seu sêmen, consagrando-se ao estudo". Alain Daniélou, Shiva e Dionisos, p. 98.

Aparigrāha, a não possessividade, traduz-se em generosidade e desapego em relação não apenas aos bens materiais, mas também às relações afetivas. O apego nos tira da sintonia necessária para praticar. Vyāsa esclarece: "Aparigrāha significa desistir de cobiçar, considerando que a cobiça e o acúmulo causam problemas, que as coisas estão sujeitas à decadência e que a associação com elas causa desconfiança e rancor".
Śaucan é a purificação. A purificação externa inclui a dieta vegetariana, exercícios de purificação orgânica (como a lavagem das vias respiratórias e dos aparelhos digestivo e excretor), e manter limpo o ambiente em que se vive. Um organismo poluído por hábitos impróprios como o uso de drogas ou alimentação intoxicante gera comportamentos e condicionamentos contraproducentes para a prática do Yoga. A purificação interna inclui a eliminação das impurezas do pensamento. As técnicas mais refinadas de purificação são tattva śuddhi e citta śuddhi (antarmouna).
Santoṣa, o contentamento, consiste em cultivar um estado interior de permanente alegria, independentemente das circunstâncias externas, o que facilitará muito o progresso na prática. Lembre que o melhor surfista não é o que surfa a maior onda: é o que tem o maior sorriso nos lábios. O melhor yogi não é o que faz o exercício mais complicado: é aquele que sabe viver melhor sua vida (o que está estreitamente vinculado com o tamanho do sorriso).
Tapas é calor, ascese, determinação, força de vontade concentrada, austeridade, esforço sobre si próprio: "produz a destruição das impurezas, o que conduz ao aperfeiçoamento da sensibilidade corporal". O objetivo desse esforço sobre si próprio é atingir um estado de purificação que permita ao indivíduo tomar posse do seu corpo, indo além dos limites impostos pela percepção limitada da realidade. Como diz Kṛṣṇa naBhagavadgītā: "Uma linguagem que não fira, verídica, amigável e benéfica, o estudo regular das escrituras, tal é o tapas da palavra. A serenidade e clareza de espírito, a doçura, o silêncio, o autodomínio, a total purificação do caráter, tal é o tapas consciente."
Svādhyāya é o estudo da metafísica do Yoga e de si próprio; abrange não apenas o autoconhecimento através da reflexão sobre a sabedoria das escrituras (śāstras), mas também a aplicação prática desse conhecimento. O svādhyāya alarga os horizontes do intelecto, enriquece e estimula a prática. O japa, a repetição de um mantra com fins de meditação, também pode considerar-se svādhyāya. Diz a Viṣṇu Purāṇa, VI:6.2:
Do estudo deve-se passar ao Yoga. 
Do Yoga deve-se passar ao estudo.
 
Pela perfeição no estudo e no Yoga,
a Consciência Suprema se manifesta. 
O estudo é um dos olhos com que vemos o Ser.
 
O Yoga é o outro.

Īśvara  pranidhāṇa, é a consagração a Īśvara, o Ilimitado, e ainda Īśvara como arquétipo do yogi, o modelo ideal a ser seguido pelo praticante. Īśvara pranidhāṇa também significa entregar as ações e seus frutos a uma vontade superior à própria. Pode entender-se como autoaceitação no momento presente ou ainda como serviço à Humanidade. A melhor definição de Īśvara pranidhāṇa está na Bhagavadgītābhavitam bhavati eva: "O que tiver que ser, será".

Esse mesmo śāstra ainda afirma que "o seu dever é agir, sem procurar recompensas pelo que você faz". Īśvara pranidhāṇa pode também incluir práticas que tenham como resultado o controle dos órgãos dos sentidos. Por exemplo, a prática de āsanas pode ser usada para controlar as mãos e os pés, o que vai facilitar a permanência nas posições sentadas. 

Poucos livros ou escolas de Yoga hoje em dia, e ainda menos no Ocidente, dedicam-se a ensinar os
 yamas eniyamas. Uma pequena reflexão sobre eles revela sua importância na manutenção da "ecologia" social e individual. Através da prática destes preceitos se estabelece uma convivência pacífica, harmoniosa e feliz na sociedade. É por essa razão que Patañjali os chama sarvabhauma, supremos ou universais, pois eles valem para todas as pessoas e em todas as circunstâncias. 

Se diz, muito equivocadamente, que o Yoga torna o indivíduo egoísta e apolítico. Mas, o que verdadeiramente acontece, é que o Yoga desprograma os condicionamentos resultantes das ideologias, as tradições ou os valores impostos pela sociedade. Ensina o indivíduo a ser ele mesmo e dá uma liberdade que está além dos preconceitos e formas de comportamento estabelecidas pela sociedade.
Paradoxalmente, desenvolve ao mesmo tempo uma consciência de solidariedade com a sociedade em que o indivíduo percebe o planeta e a raça humana como uma unidade. É uma verdadeira revolução interior. 

Cada parte do Yoga tem um propósito definido. Esses dois primeiros passos não são específicos dele, mas configuram uma base de purificação mental, psíquica e física que resultará indispensável nas etapas posteriores. O Yoga não é moral nem moralizante: estas prescrições possuem uma função meramente utilitária e, embora possam funcionar como códigos para facilitar a convivência social, somente se praticam em função do objetivo final.
Os conceitos de "bem" e "mal" não determinam a conduta do yogin; a única causa do seu comportamento é o titânico esforço sobre si próprio necessário para viver os yamas e niyamas e assim, preparar-se para o reconhecimento da sua real natureza, que é mok?a, a libertação, objetivo do Yoga. 

A primeira palavra que aparece no 
Yogasūtra é atha, que significa agora. Agora, a seguir, depois que algo já foi ensinado. Isso, porque o Yoga não é para iniciantes. Por isso que existem os yamas e niyamas. Você não conseguiria, e praticamente ninguém, seguí-los à risca. Mas mesmo assim pode usar o Yoga. Porque está escrito nas Upaniṣads:
Yata Brahmande tata pindade. 
"Assim como é no Ilimitado, assim é também no corpo".

Essa última afirmação pode parecer misteriosa. Mas, como colocar realmente os
 yamas e niyamas em prática? Talvez você possa concordar comigo em que discorrer sobre a ética é teoricamente muito interessante, mas impossível de aplicar-se na prática por seres humanos normais, porque os yamas eniyamas são para santos, mas o Yoga é para gente como nós. Na verdade, você não precisa seguir todos osyamas e niyamas ao mesmo tempo. Escolha apenas um, e mantenha-o a qualquer preço. Os outros virão sozinhos. 

Pessoalmente, escolhi
 satya, a verdade. Nós mentimos o tempo todo, sem perceber, gratuitamente. Mentimos para a nossa família, para os nossos amigos, para as pessoas com quem nos relacionamos no dia-a-dia e, principalmente, para nós mesmos. E, quanto mais se mente, mais se reforça o vritti e o hábito de mentir, o que é um obstáculo intransponível se se quiser realmente avançar na prática. 

O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein disse que "quem sabe demais acha difícil não ter que mentir". Em certas circunstâncias, ele tem razão: às vezes, a responsabilidade de lidar com a verdade pesa bastante. Mas isso não significa que você passará a usar a "verdade" para agredir os outros "por seu próprio bem". Porque a verdade pura, aquela que vêm do coração, não machuca nem dói. Vou lhe contar a história do ladrão e o rei.
 
A história do ladrão e o rei
Uma vez, um ladrão quis aprender Yoga. Foi visitar um mestre e disse-lhe que queria praticar, mas que era ladrão, bêbado e mentiroso. O mestre falou dos yamas e niyamas, e disse que, para começar, deveria escolher um yama ou um niyama e ater-se a ele. O ladrão pensou: "minha profissão é roubar.
É o que sustenta a minha família, portanto, fora de questão seguir asteya. A bebida é a minha única fonte de prazer, e tampouco vou largá-la. Ou seja, que nem shauchan nem tapas. Mas, deixar de mentir não vai me custar tanto. Vou seguir satya." E assim foi que ele decidiu falar somente a verdade. 

Uma noite, o nosso ladrão foi roubar o palácio real. Eis que o rei estava passeando pelo jardim após um dia entediante, buscando algo que lhe tirasse o vazio existencial. Os dois se encontraram e o rei pergunta: "quem é você?". O ladrão disse a verdade: "sou um ladrão e vim roubar o tesouro real."
 

O rei viu ali a possibilidade de viver a emoção e a aventura que estava procurando desde cedo, e então falou: "eu também sou um ladrão. E sei onde se guarda a chave da sala do tesouro. Façamos juntos o trabalho e dividamos o lucro". O ladrão concordou.
 

Os dois aventureiros entram no palácio, chegam na sala e dividem o tesouro. Porém, acham três enormes diamantes, que não podem ser divididos sem beneficiar um deles mais do que o outro. O ladrão, apelando para aquela generosidade que ocasionalmente conseguem ter os da sua profissão, diz: "fiquemos com um diamante cada, e deixemos o terceiro para o rei. Afinal, coitado, ele acabou de perder tudo." Ao separar-se no jardim, o rei pergunta ao ladrão onde ele mora, e fala da possibilidade de contatá-lo novamente para futuros "trabalhos". O ladrão fala a verdade.
 

No dia seguinte, o rei vislumbra a possibilidade de testar seu primeiro ministro. Chama-o e diz: "ontem à noite tive um sonho estranho. Sonhei que o tesouro fora roubado. Vá à sala conferir, pois um pressentimento está oprimindo meu coração."
 

O ministro entra na sala, vê o diamante que sobrou e pensa: "o nosso rei perdeu absolutamente tudo. Este único diamante não fará nenhuma diferença". Esconde a pedra preciosa sob a túnica e volta à sala do trono, dizendo que, efetivamente, o tesouro inteiro foi roubado. O rei manda prender o ladrão. Ao ser interrogado na frente do ministro, conta o acontecido: desde o encontro com o "colega" de profissão até o detalhe do diamante que eles deixaram na sala.
 

Desta forma, o rei descobre que o seu ministro não é de confiança, pois mente e rouba. Manda prendê-lo imediatamente. E, em seu lugar, nomeia primeiro ministro seu novo amigo, o ladrão. Este, dada a sua nova ocupação, deixou de roubar. E, como passou a ter outros prazeres, deixou igualmente de beber.
 

Ou seja, se você também escolher e seguir apenas um dos
 yamas e niyamas, os outros acontecerão sozinhos. Se quiser, tome essa escolha como um exercício temporário, digamos durante algumas horas, dias ou semanas, para observar a suas próprias reações. Se, por exemplo, você escolheu seguir a não-violência e sentiu dificuldades, ou não ficou conforme com o resultado, há ainda as outras possibilidades.

Depois que você conseguir a firme resolução de continuar com a sua decisão, verá que fica mais e mais fácil mantê-la, em qualquer circunstância. O convite está feito. Mas lembre que isto deve ser tomado como puro sádhana no dia a dia, e que deve servir como objeto de observação de si próprio, a cada momento, para treinar e testar o seu nível de consciência e a sua atenção, e ver como você reage ao seu próprio karma. E o que é o
 karma, então?
 
Karma é liberdade

Karma é o resultado das ações, a lei de causa e efeito. Ação e reação configuram dois aspectos da mesma realidade. A noção de karma não tem nada a ver com fatalismo ou determinismo (embora o efeito esteja potencialmente contido na sua causa): muito pelo contrário, é uma realidade que pode ser modificada, uma sorte de destino maleável.
 Swami Vivekānanda definiu o karma como
"A eterna afirmação da liberdade humana. Nossos pensamentos, nossas palavras, nossos atos, são fios de uma rede que tecemos ao redor de nós mesmos."
Controlar o karma é ser senhor de si próprio. Isso se faz através da prática constante de yama e niyama. O primeiro passo é tomar consciência de que ele existe, analisá-lo e estudar como criamos o nosso próprio destino. Assim poderemos evitar as coisas que nos fazem mal e atrair as que nos fazem bem. Temos que aprender a reconhecer as nossas tendências, que se pautam pelo samskára, o conjunto das latências subconscientes. 

Isso não significa apenas ser saudável e feliz, ou ter uma relação harmônica com as pessoas e o meio em que se vive. Também, conhecendo o nosso karma, podemos nos libertar dele, que é em definitiva o objetivo final da prática.
 

Você não deve deixar que as coisas "aconteçam" consigo. Afirma Vyāsa: 
As coisas fortuitas não colocam a Natureza em movimento. Apenas a remoção dos obstáculos permite que ela se manifeste, como o agricultor que remove as barreiras para que as águas possam fluir.

Removidos os obstáculos, a Natureza se desvela. Ser virtuoso pela virtude em si, não traz mokṣa, a liberdade, nem faz com que a verdadeira natureza se manifeste.
 

A virtude não é o que irá produzir a evolução. A virtude é apenas uma conseqüência. O efeito não determina a causa. É determinado por ela. Por exemplo, o poder de ouvir é a causa. O que se ouve, o efeito. O ato de ouvir não é a causa material da audição. O poder de agir em consonância com a Natureza é a causa. A ação correta, a conseqüência.
 

Os rituais coletivos, como o agnihotra, transformam os karmas coletivos. O sádhana tem como objetivo sutilizar o karma individual. Libertar-se do próprio karma é a maior e mais ambiciosa tarefa que um homem pode empreender. Puru?a, o Ser Ilimitado, é igualmente o
 axis mundi, o ponto central do Universo. 

Se tomarmos consciência da nossa verdadeira natureza, o Universo responderá em consonância. Os objetivos se conseguem afinando-se com a natureza da Natureza. É a natureza da Natureza se alcança usando os
 yamas e niyamas. 

Mas aqui temos um paradoxo: o
 yogi que consegue aniquilar o seu karma, em verdade não é livre, pois tem uma única opção: agir em consonância com a Natureza. Eliminar o karma não significa renunciar às coisas do mundo, mas ir além dos condicionamentos que nos atam a ele e nos fazem pensar que a felicidade depende das coisas que vêm de fora. Para isso, é fundamental entender o Karma Yoga, método que busca a realização pela da ação desinteressada, sem considerar seus resultados.
O śāstra que ensina esta forma de Yoga é a Bhagavadgītā, em que Viṣṇu, encarnado como Kṛṣṇa, ensina o príncipe Arjuna a viver em harmonia com o karma, a lei universal, e o dharma, a lei humana, tendo como pano de fundo a terrível guerra travada entre duas famílias reais, primas entre si: os Pándavas e os Kauravas. Esse confronto simboliza a dialética da vida.
Arjuna se nega a matar pessoas do seu próprio sangue, refugiando-se numa renúncia mal entendida. Entretanto, é convencido por Kṛṣṇa sobre a inevitabilidade da ação, pois, desde que o homem está vivo, está sujeito à lei do karma, sendo-lhe impossível fugir à ação. Renunciar não significa subtrair-se à vida, isolar-se do mundo e da sociedade:
"A má ação, como dizem os hindus, não é viver no tempo, mas acreditar que não existe nada mais fora dele. É-se devorado pelo tempo, pela História, não porque se vive no tempo, mas porque se crê na realidade do tempo e, por esse motivo, esquecemo-nos ou desprezamos a eternidade". Mircéa Éliade, Mitos, sonhos e mistérios, p. 51.

Kṛṣṇa propõe um
 Yoga em que ação e contemplação estão intrinsecamente ligadas. O que é necessário fazer é viver a própria vida executando as ações cabíveis a si mesmo, eliminando o apego aos seus resultados. Numa palavra, traz o Yoga para a vida secular, para aqueles que não podem renunciar às suas responsabilidades humanas:

Ó Arjuna, aquele que, mantendo os sentidos sob o controle da faculdade mental, se empenha desinteressadamente com os órgãos da ação no Yoga da ação, esse é eminentemente superior. Portanto, realiza a ação a ti devida, pois a ação é superior à inação: mesmo tua vida física não saberia sobreviver sem ação. Bhagavadgītā, III:6-8.

Ser
 yogi não significa obcecar-se com a técnica, mas esforçar-se para que a perfeição flua através de todos os atos, mantendo sempre uma atitude positiva e aberta, evitando fechar-se em fórmulas rígidas. Ou seja, a iluminação está aqui mesmo, e pode conseguir-se lavando a louça ou fazendo qualquer outra atividade:fazendo o que você tem que fazer! Diz o sábio Va?i??ha:
Toda a criação é paz, infinita e eterna. 
Veja a infinita consciência em tudo e fique em paz. 
Yoga é a cessação das experiências dos objetos. 
Fique no estado de Yoga e faça o que você tem que fazer. 
Fique no estado de Yoga e viva.
Lāghu Yoga Vaśiṣṭha, CXXVI:78. 

O importante é possuir mais disposição interior para viver e trabalhar, ser mais consciente e superar-se, mas sem que isto se transforme numa compulsão. A cada dia oportunidades nos são oferecidas para aprender a superar-nos: não as deixemos passar. Ao mesmo tempo, lembre de não confundir atitude positiva com virtudes positivas.
Convém manter uma disposição positiva, sem necessariamente ser inofensivo, bonzinho ou indulgente demais. Em determinadas circunstâncias, uma atitude firme acaba sendo mais sadia ou rendendo mais frutos que o excesso de bondade.




Surya Namaskar
O que é Saudação ao Sol?

Surya (Sol) Namaskar (Saudação) é a prática de uma sequência de Asanas que se conectam num movimento fluido. Muito vigorosa, é conhecida como a primeira e é até hoje a mais popular prática do Yoga Vinyasa. Seu objetivo é saudar e ativar a fonte geradora da nossa energia vital.
Curiosidades sobre o Surya Namaskar
Na tradição védica a Saudação ao Sol não se tratava de uma sequência de posturas, mas sim de uma sequência de mantras, que honravam o sol como símbolo divino. Essas palavras de poder eram entoadas ao amanhecer e chegavam a levar mais de uma hora para serem recitadas.
Não sabemos dizer ao certo a origem dessa prática como Asanas, pois não há referência a essa sequência nos textos de Yoga tradicionais.
Quando devemos praticar a Saudação?
O mais comum dessa prática é a sua execução de manhã, de frente para o Sol. Entretanto, muito além de saudar o Astro Rei Sol gerador de Prana (Energia Vital do planeta), no Surya Namaskar, estamos saudando também nosso Sol interior, ou seja, a fonte de nossa vida, nosso Atma ou Alma. Dessa maneira, pode-se executar as posturas a qualquer hora do dia, contanto que o busquemos  ascenda o nosso Sol interior.
O que faz dessa sequência algo tão poderoso?
Primeiramente, a sequência é feita com Asanas que exigem força, resistência respiratória, equilíbrio e concentração.
Para sua execução, é necessário o perfeito equilíbrio entre as 4 fases da respiração: Inspiração (Puraka), Sustentação dos pulmões cheios de ar (Kumbaka), Expiração (Rechaka) e Sustentação dos pulmões vazios (Sunyaka). Para isso, é recomendada a ativação de uma respiração mais ritmada e poderosa, chamada de Uyyai Pranayama (a respiração vitoriosa).
Outra técnica que também é aplicada é a Contração de algumas partes do corpo: tais como o períneo (Mula Bandha), o abdômen (Uddiyana Bandha) e a garganta (Jalandhara Bandha), prática que estimula o bom funcionamento das principais glândulas do corpo, ativando o metabolismo.

Veja aqui alguns dos benefícios para a saúde gerados pelo Surya Namaskar .

1)    Sistema Respiratório: melhora a oxigenação das células e dos tecidos do corpo e cérebro;
2)    Sistema Circulatório: estimula a atividade cardíaca;
3)    Sistema Digestivo: massageia vigorosamente o abdômen, estimulando os movimentos peristálticos, eliminando gases e melhorando a digestão;
4)    Sistema Urinário: elimina toxina, tonifica bexiga e rins;
5)    Sistema Nervoso: por conta dos movimentos ritmados, a coluna vertebral é altamente solicitada e massageada beneficiando nervos e plexos;
6)    Sistema Glandular: promove uma forte estimulação em todas as glândulas, ativando suas funções.


O Poder dos Asanas do Surya Namaskar:

1. Tadasana:
Benefícios: Acalma o centro do coração
Concentração: Anahata Chakra (Plexo Cardíaco)
Mantra: Om Mitraya Namah - "Eu reverencio a Ele que é toda bondade"
Virtude: Espiritualidade

2. Ardha Cakrasana
Benefícios: Promove abertura peitoral e fortalece as costas
Concentração: Visuddha Chakra (Plexo Laríngeo)
Mantra: Om Ravaye Namah - "Eu reverencio a Ele que é a causa de todas as transformações"
Virtude: Felicidade

3. Padahastasana
Benefícios: Elimina a fadiga
Concentração: Svadhistana Chakra (Plexo Sacral)
Mantra: Om Suryaya Namah - "Eu reverencio a Ele que induz à atividade"
Virtude: Discernimento

4. Uttana Bhujangasana
Benefícios: Desenvolve uma visão clara e límpida da realidade
Concentração: Ajna Chakra (Plexo Frontal)
Mantra: Om Bhanave Namah - "Eu reverencio a Ele que difunde"
Virtude: Alegria

5. Santolasana
Benefícios: Fortalecimento dos membros superiores e inferiores e abdômen
Concentração: Visudha Chakra (Plexo Laríngeo)
Mantra: Om Khagaya Namah - "Eu reverencio a Ele que se move no céu"
Virtude: Piedade

6. Astanga Namaskara
Benefícios: Promove um profundo relaxamento
Concentração: Manipura Chakra (Plexo Solar)
Mantra: Om Pusne Namah - "Eu reverencio a Ele que alimenta a todos"
Virtude: Humildade

7. Bhujangasana
Benefícios: Promove força de ação
Concentração: Svadhistana Chakra (Plexo Sacral)
Mantra: Om Hiranyagarbhaya Namah - "Eu reverencio a ele que se move no céu"
Virtude: Saúde

8. Adho Mukha Svanasana
Benefícios: Promove equilíbrio entre forças Yin e Yang
Concentração: Svadhistana Chakra (Plexo Sacral)
Mantra: Om Maricyaye Namah - "Eu reverencio a ele que possui raios"
Virtude: Compaixão

9. Uttana Bhujangasana
Benefícios: Promove concentração
Concentração: Ajna Chakra (Plexo Frontal)
Mantra: Om Adityaya Namah - "Eu reverencio a Ele que é o Deus dos Deuses"
Virtude: Equanimidade
  
10. Padahastasana
Benefícios: Promove atividade mental
Concentração: Svadhistana Chakra (Plexo Sacral)
Mantra: Om Savitre Namah - "Eu reverencio a Ele que produz a todas as coisas"
Virtude: Lealdade

11. Ardha Cakrasana
Benefícios: Promove abertura peitoral e fortalece as costas
Concentração: Visuddha Chakra (Plexo Laríngeo)
Mantra: Om Arkaya Namah - "Eu reverencio a Ele que permite ser adorado"
Virtude: Amor

12. Tadasana:
Benefícios: Promove a fé
Concentração: Anahata Chakra (Plexo Cardíaco)
Mantra: Om Bhaskaraya Namah - "Eu reverencio a Ele que conduz à iluminação"
Virtude: Sabedoria

Então, vamos à prática?
Vida Sexual na Medicina Chinesa


A Medicina Chinesa sempre insistiu na importância da atividade sexual excessiva: este artigo chamará a atenção a dois fatores:
- A diferenciação entre homens e mulheres no que diz respeito à atividade sexual.
- Atividade sexual insuficiente como causa de enfermidade.
Quando se fala de atividade sexual, os livros chineses nunca diferenciam homens e mulheres. Há diferenças significativas entre a fisiologia sexual masculina e a feminina, pois o excesso de atividade sexual é um fator que causa menos enfermidades em mulheres do que em homens, devido à natureza do Tian Gui.
Tian Gui é a essência geradora que faz homens e mulheres serem férteis. O primeiro capítulo do Su Wen diz: “Quando a menina alcança os 14, o Tian Gui chega, o Ren Mai se abre, o Chong Mai floresce, a menstruação começa e ela é capaz de conceber.” No caso dos homens, “quando um rapaz tem 16, o Qi do Rim é forte, o Tian Gui chega, o esperma é ejaculado, Yin e Yangestão em harmonia e ele é fértil.” Portanto, Tian Gui é a essência que permite às mulheres conceber e aos homens fertilizar.
Nos homens, a perda de esperma implica em uma perda de Jing (Essência), por isso, a atividade sexual excessiva (muito frequente) pode diminuir o Jing. Nas mulheres não há a mesma perda de Jing na atividade sexual, já que não há perda de óvulos durante o ato.
Ainda que os livros chineses sempre mencionem o excesso de atividade sexual como causa de enfermidade, nunca mencionam a atividade sexual insuficiente como possível causa de enfermidade. Não foi sempre assim, pois nas dinastias passadas todos os manuais de sexo diziam claramente que a atividade sexual é essencial para a saúde tanto de homens quanto de mulheres. De fato, a abstinência sexual era vista de forma suspeita (assim como as monjas budistas).
Alguns médicos chineses consideravam tanto a falta de sexo quanto a frustração sexual como uma das principais causas de estresse emocional em mulheres. O desejo sexual depende do Fogo Ministro, e um apetite sexual saudável indica que este Fogo (fisiológico) é abundante. Quando o desejo sexual cresce, o Fogo Ministro se aviva e o Yang aumenta: o orgasmo é a liberação desta energia Yang acumulada, e sob circunstâncias normais, é uma descarga benéfica de Yang-Qi que promove a livre circulação do Qi. Quando o desejo sexual cresce, o Fogo Ministro se agita, isto afeta a Mente (Shen) e especificamente o Coração (Xin) e o Pericárdio (Xin Bao). O Coração conecta-se ao Útero através do vaso do Útero (Bao Mai), e nas mulheres as contrações orgásmicas do útero descarregam a energia Yang acumulada do Fogo Ministro.
Quando há desejo sexual, mas não há atividade sexual e orgasmo, o Fogo Ministro pode tornar-se patológico, acumulando-se e gerando calor no Sangue (Xue) e estagnação de Qi no Aquecedor Inferior. Este calor acumulado agitará o Fogo Ministro ainda mais e perturbará o Shen, até que a estagnação de Qi no Aquecedor Inferior possa ocasionar problemas ginecológicos, como a dismenorréia. Assim sendo, quando há ausência de desejo sexual, a falta de atividade sexual não será causa de enfermidade, contrariamente a alguém que se abstenha da atividade sexual mas que possua um forte desejo, o que agitará o Fogo Ministro. Portanto, o fator determinante é a atitude mental e o desejo sexual.
No que diz respeito à frustração sexual, Chen Jia Yuan, da Dinastia Qing, escreveu de maneira muito observadora a respeito do desejo e da solidão de algumas mulheres. Entre as causas emocionais de enfermidade, diferencia a “preocupação e o pensamento” da “depressão”. Basicamente considera a depressão, com sua consequente estagnação, como consequência da frustração emocional e sexual e da solidão. Diz: “Em mulheres...como viúvas, monjas Budistas, servas e concumbinas, o desejo sexual agita (a mente) por dentro, mas não podem satisfazer o Coração (Xin). O corpo está restringido por fora e não pode se expandir com a mente (a mente deseja a satisfação sexual mas o corpo o nega). Isto causa estagnação de Qi no Triplo Aquecedor (San Jiao) e no peito, após algum tempo haverá sintomas estranhos como sensação de frio e calor como se fosse malária, mas não é. É a depressão”.1
Mesmo que as considerações acima derivem da experiência clínica do Dr Chen com servas, monjas Budistas e Concumbinas, e considerando que sua experiência deveria ser considerada em relação ao contexto social da Dinastia Qing, isto também é relevante nos tempos de hoje, já que fala essencialmente sobre a frustração sexual e solidão, como confirma sua referência a viúvas (na China antiga as viúvas eram deixadas a um segundo plano e raramente voltavam a se casar). Refere-se especificamente ao desejo sexual que agita o corpo mas não encontra satisfação nem no Coração nem na Mente: além da frustração sexual, se refere também à frustração emocional e ao desejo de amar e ser amado.
Portanto, considerando a posição social das mulheres na China Antiga e a habitual frustração destacada acima, não é de se estranhar que a estagnação de Qi ocupe um lugar tão central nas patologias femininas, sendo a estagnação emocional em mulheres frequentemente o resultado da frustração sexual, separação, perda e solidão: estes são os ”desgostos” recorrentes nos livros de medicina chinesa.
A frustração sexual era uma causa comum de enfermidade especialmente a partir da Dinastia Song em diante, já que os Confucionistas não viam com bons olhos a atividade sexual, que deveria ser praticada em segredo, e mesmo assim sem nenhuma amostra de afeição em público (como acontece hoje em dia na China). O modo de atuar em segredo da medicina e sociedade chinesa é um resultado claro não tanto da influência Comunista, mas da influência Confucionista da dinastia Qing. É importante compreender, porém, que estas regras não implicavam em nenhum conceito de sexo relacionado a “pecado”, nem que a mulher fosse vista como origem do pecado como estabelece o ponto de vista Cristão. A aversão Confucionista ao sexo era determinada principalmente devido ao medo de que a promiscuidade pudesse atrapalhar a sagrada vida em família.
1- Eight Secret Books on Gynaecology, p.152.
Traduzido do artigo: Vida Sexual en Medicina China - Maciocia, Giovanni (http://maciociaonlinespanish.blogspot.com/2011/07/vida-sexual-en-medicina-china.html)

Por: Giovanni Maciocia

O pai da medicina ocidental, o médico e filósofo grego Hipócrates, gostava de repetir enquanto cuidava de seus pacientes que “o homem é uma parte integral do cosmo e só a natureza pode tratar seus males”. Com isso, ele queria mostrar que as causas da doença eram naturais – e não punições divinas como se acreditava até então – e lembrar que o equilíbrio e a saúde do corpo estão diretamente ligados ao ambiente em que vivemos. Essa mesma frase voltou a soar atual nos últimos anos, ao mesmo tempo em que ocorre uma popularização dos métodos alternativos à mesma medicina ocidental que Hipócrates fundou.
A partir do século 17, quando as idéias do filósofo René Descartes começaram a influenciar a ciência, os tratamentos médicos passaram a ver o corpo humano como uma máquina em que cada parte tinha uma função específica e independente. Para Descartes, entendendo-se cada uma das partes, entende-se o todo. Simples assim. A medicina moderna, esquecendo o conselho de Hipócrates, ergueu-se sobre esse pressuposto e ainda está bastante apoiada nele. Hoje, a teoria de Descartes já não faz muito sentido. A ciência mais que provou a intrínseca relação entre mente e corpo e suas conseqüências para a saúde humana. Também está claro que isolar uma parte do corpo e desconsiderar o resto é receita segura para efeitos colaterais inesperados.
Isso não significa dizer que a medicina ocidental ortodoxa tenha desabado e que todos os médicos e hospitais estejam para sempre soterrados nos escombros. Claro que não. A medicina é um edifício sólido, cheio de méritos. Mas, em alguns países do globo, como Canadá e França, uma parcela tão grande quanto 70% da população recorre a tratamentos não convencionais de cura. Esses métodos são bem diferentes uns dos outros – inclusive nos resultados. Mas há algo mais ou menos em comum entre quase todos: eles enxergam o corpo como Hipócrates. Não somos máquinas, somos organismos vivos, cheios de partes interdependentes.
O uso crescente das técnicas alternativas – seja como opção à medicina ortodoxa, seja como complemento a ela – não determina por si só que elas sejam eficientes. Longe disso. Na verdade, estudos confiáveis atestando a eficiência de práticas alternativas são raríssimos. Veja o caso da homeopatia, certamente uma das mais conhecidas entre essas técnicas. Ela existe há mais de 200 anos, é procurada por milhões de pessoas no mundo todo e reconhecida oficialmente no Brasil como uma especialidade médica. Era de se esperar que, dada sua enorme popularidade, ela tivesse sido bem estudada pela ciência.
Pois, segundo um estudo feito pela prestigiada Escola Médica Península, da Inglaterra, foram feitos até hoje, no mundo todo, apenas seis exames rigorosos que comparam a eficiência de remédios homeopáticos com a dos convencionais. Só há oito estudos que comparam a ação da Arnica montana (um dos princípios ativos homeopáticos mais largamente utilizados) com placebo (“falsos” medicamentos, sem nenhum princípio ativo). É muito pouco e os resultados estão longe de ser conclusivos.
Isso quer dizer que a ciência dá as costas para a medicina alternativa? Talvez. Mas as “duas medicinas” têm se aproximado nos últimos anos e hoje admitem a possibilidade de incorporar características uma da outra. “As duas têm aspectos positivos e negativos”, disse Xiang Ping, reitor da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa, em Nanquim, num discurso de formatura. “A ocidental baseia-se em análises e radiografias, mas não aborda o todo orgânico. Já a medicina tradicional chinesa é eficaz na regulação de todo o corpo. Penso que a combinação das duas medicinas seria perfeita e muito benéfica para as pessoas.”
Essa visão de que o corpo é um organismo interligado – e, portanto, não pode ser subdividido em partes independentes – parece ser uma das principais vantagens de muitas técnicas alternativas em relação à ortodoxia médica. “É verdade que, com a verticalização do conhecimento, muitos médicos passaram a ver ‘a doença do paciente’ e não ‘uma pessoa com uma doença’”, reconhece o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CRM-SP), Clóvis Constantino. Já para a medicina alternativa, essa visão não é novidade. “Não existem doenças e sim doentes” foi sempre o lema de Edward Bach, médico inglês que no final do século 19 desenvolveu os controvertidos florais de Bach, uma técnica alternativa bastante difundida.
Ao mesmo tempo, adeptos de práticas alternativas têm incorporado aspectos imprescindíveis da medicina oficial, como a necessidade de apresentar resultados eficientes. Parece um pouco óbvio para nós, ocidentais, mas, para muitas técnicas de fundo “filosófico”, o fato de um tratamento funcionar ou não é menos importante do que ele se conformar à “filosofia” na qual é baseado. “Há alguns anos, houve um boom das técnicas alternativas. Aí surgiram profissionais que erroneamente refutavam qualquer idéia da medicina convencional”, diz Paulo Eiró Gonsalves, que organizou o livro Medicinas Alternativas – Os Tratamentos Não Convencionais, um dos primeiros no Brasil a reunir textos sobre vários dos métodos alternativos de cura. Prometia-se qualquer coisa e muita gente achava desnecessário testar esses métodos com as ferramentas da ciência – afinal a ciência era, para muitos, o “inimigo” a ser combatido. Hoje, cada vez mais, os entusiastas têm se empenhado em enxergar os métodos que empregam com os olhos da ciência.
Um bom exemplo desse fenômeno – um que não é lá muito favorável às terapias alternativas – é Steven Bratman. Esse cientista americano, formado em acupuntura, shiatsu, medicina chinesa, fitoterapia e osteopatia craniana, abandonou a direção de uma clínica na Califórnia que misturava as abordagens convencional e alternativa e dedicou-se a estudar a fundo as pesquisas sobre a eficácia das alternativas. Em 1996, Bratman publicou um livro razoavelmente favorável às abordagens alternativas, o Guia Prático da Medicina Alternativa. “Na época, eu acreditava na medicina alternativa e, portanto, assumia uma atitude positiva.
Além disso, eu ignorava que muitos dos estudos em que me baseava não eram rigorosos o suficiente para serem levados a sério”, diz hoje. Depois de estudar mais e encontrar falhas em quase todas as pesquisas com resultados favoráveis, Bratman chegou a uma conclusão desanimadora. Segundo ele, todos os estudos somados não são suficientes para dar razão aos que dizem que essas terapias são um bom jeito de tratar doenças.
Bratman percebeu que a imensa maioria dos estudos científicos sobre o assunto é pouco rigorosa. Isso não é à toa. “Bons estudos são caros”, diz Edzard Ernst, que dirige o Departamento de Medicina Complementar da Escola Médica Península. E dinheiro é um problemão para homeopatas, cromoterapeutas e afins. Medicamentos da medicina ortodoxa geralmente são testados sob patrocínio de grandes laboratórios farmacêuticos, interessados em comercializá-los. Já as técnicas, práticas e remédios menos rentáveis não encontram apoiadores tão facilmente. Não há muitas grandes empresas interessadas em divulgar a acupuntura ou a iridologia. O departamento de Ernst, mantido pelas universidades inglesas de Exeter e Plymouth, é uma das cada vez mais freqüentes exceções à regra da falta de pesquisas. “Começamos a trabalhar há dez anos. Meu objetivo sempre foi e é um só: aplicar as regras da ciência às técnicas alternativas e complementares”, diz Ernst. Eles já publicaram mais de 700 artigos sobre o tema na literatura médica.
É um belo avanço, mas ainda é pouco. Enquanto não há pesquisas suficientes, a medicina alternativa se baseia, muitas vezes, nos resultados obtidos no consultório, no tratamento de pacientes. O médico americano Jack Raso, autor de Alternative Healthcare – A Comprehensive Guide (“Tratamento Alternativo – Um Guia Geral”, sem versão brasileira), classificou esse conhecimento como “empirismo não-científico”, ressaltando que esse tipo de controle está muito propenso a falhas de vários tipos. Por exemplo: os pacientes desses consultórios tendem a simpatizar com seus terapeutas e a fazer uma análise pouco objetiva. Às vezes a doença passa sozinha e o sujeito, já inclinado a uma avaliação positiva, fica com a impressão de que o tratamento é que deu certo.
Apesar da falta de provas da eficácia, há muita gente disposta a usar os métodos alternativos – inclusive onde menos se espera. Em setembro de 2003, Ernst ajudou o diário britânico The Daily Telegraph a organizar uma enquete em que uma centena de cientistas foi interrogada sobre o uso pessoal de algum método alternativo de tratamento ou cura. Era de se esperar que cientistas, gente com fama de cética, não se interessassem pelo assunto. Não foi bem o que aconteceu. Dos 75 que responderam à pesquisa, 30 disseram já ter usado algum tipo de tratamento alternativo e 20 disseram que os métodos deveriam estar disponíveis a todos por intermédio do National Health System, o sistema de saúde oficial britânico.
É importante lembrar que o fato de não existirem pesquisas que garantam a eficiência de um método não comprova que esse método seja ineficiente. “Falta de evidência não é o mesmo que evidência de falta de resultado”, diz Ernst. Ou seja, na maior parte do tempo, a resposta mais honesta à crucial pergunta sobre se as técnicas alternativas funcionam ou não é um redondo “não sei”.
Duas medicinas?
Mas, antes de seguir na discussão, é bom avisar que o nome que imprudentemente imprimimos na capa – “medicina alternativa” –, para algumas pessoas, nem existe. “Não há medicina alternativa ou medicina complementar”, diz Clóvis Constantino. “A medicina é uma só. Ela engloba diferentes métodos, terapias, tratamentos e remédios que se provaram eficientes pelas pesquisas.” Veja o exemplo da acupuntura. A ciência não acredita que sua filosofia esteja correta – ninguém conseguiu verificar a existência de canais de energia correndo pelo corpo. Mesmo assim, testes bem conduzidos provaram para além das dúvidas que as agulhas são eficazes para tratar vários males – por mais que não se entenda como.
Por conta disso, a medicina incorporou a parte da acupuntura cujos resultados foram comprovados. Hoje, as faculdades de medicina ensinam a espetar, os hospitais contratam acupunturistas, os conselhos médicos reconhecem e regulamentam a técnica e alguns planos de saúde pagam o tratamento. A medicina não é um sistema filosófico fechado e imutável, como são as religiões e muitas das terapias alternativas. Ela é uma área do saber que agrupa as mais eficientes técnicas conhecidas para tratar doenças – e portanto pode incorporar coisas que nasceram fora dela.
Parece sensato, mas muitos praticantes de terapias alternativas temem que a absorção de seus métodos pela medicina ortodoxa possa desfigurar aspectos terapêuticos que são parte de um sistema coerente. “Se você vai usar apenas a parte de uma tradição de cura que tem explicação científica, ignorando a base filosófica, vai usar a terapia de maneira incompleta”, diz Paulo Eiró Gonsalves. O que Paulo quer dizer é que tomar agulhadas num hospital, aplicadas por um médico formado numa faculdade, não é a mesma coisa do que ser atendido por um velho mestre chinês versado na energia da vida e na visão totalizante do corpo. No primeiro caso, as agulhadas são apenas um remédio a mais, como a aspirina. Pode até funcionar – já que eficiência sem dúvida é uma característica da medicina ortodoxa, ocidental – mas não rompe com o tal modelo de Descartes, que algumas terapias alternativas criticam.
E, afinal de contas, o que é medicina alternativa, se é que essa coisa existe? As técnicas e métodos agregados sob esse nome são tão distintas que torna-se impossível criar uma definição coerente para o termo. Nem todas são naturais, nem todas são holísticas, nem todas são orientais, nem todas são não-oficiais. Com isso, técnicas tão distantes em histórico e abordagem quanto a fitoterapia mágica e a medicina oriental, por exemplo, são colocadas no mesmo barco. A fitoterapia mágica, criada em 1983 pelo americano Scott Cunninghan, é uma releitura duvidosa da fitoterapia clássica e tem pouquíssimos adeptos no mundo – entre as práticas que propõe, há uma que prevê que enterrar um feijão pode servir para tirar pintas ou verrugas. Já a medicina oriental reúne elementos de sistemas tradicionais de cura originados há milhares de anos na Grécia, no Egito e na China. Suas práticas são conhecidas e testadas no mundo todo e já são aceitas por parte da comunidade científica ocidental.
Essa falta de limites claros é vantagem apenas para as técnicas pouco confiáveis que se valem de lugares-comuns espalhados como verdades. Para os pacientes, a falta de limite faz com que a busca por uma opção de cura não convencional seja difícil e perigosa. Usar o procedimento de Cunninghan para se livrar de pintas, por exemplo, pode tornar-se apenas uma perda de tempo. Mas pode também acabar retardando a descoberta de um câncer maligno. É por isso que é importante conhecer as especificidades de cada terapia – a tabela da página 58 traz uma breve descrição das técnicas mais populares e dos seus resultados.
Como regra geral, vale dizer que nenhuma das terapias alternativas deve ser usada em todas as circunstâncias. Se houver qualquer razão para suspeitar de uma doença mais séria, como um câncer ou uma infecção que não passa, um médico convencional certamente vai estar mais equipado para fazer o diagnóstico. As terapias alternativas podem ser boas maneiras de se manter saudável – já que muitas delas pregam o “equilíbrio” nos vários aspectos da vida, um jeito bem razoável de se prevenir de doenças. Elas também são uma saída para problemas causados por males “subjetivos” – as várias doenças ligadas à tensão, por exemplo, podem se beneficiar muito de métodos holísticos, que incluam conversas com o terapeuta, música tranqüila e massagens. Doenças misteriosas como as alergias, ainda mal compreendidas pela medicina do Ocidente, igualmente parecem se beneficiar de tratamentos como a acupuntura e a homeopatia.
E dores musculares ou torções, para as quais a medicina convencional receita quase sempre atenuantes de sintomas, parecem se beneficiar muito mais nas mãos de um quiropraxista ou acupunturista. É claro também que não há mal nenhum em procurar um terapeuta alternativo para cuidar de uma doença para a qual a medicina não tem cura ou para aliviar efeitos colaterais de remédios ortodoxos. Mas os médicos convencionais são bem melhores para combater doenças mais “objetivas”, aquelas causadas por fungos, vírus, bactérias e outros inimigos palpáveis que só podem ser vistos com microscópio. De um modo geral, as abordagens alternativas não existem para curar doenças, mas para preveni-las e para complementar um tratamento convencional. Há exceções – a acupuntura, sem dúvida, é eficaz na cura de alguns males, não de todos – mas o ideal é não adotar uma postura radical, do tipo “eu jamais vou a um médico convencional”.
Mas, afinal, se na maioria das vezes não sabemos se a medicina alternativa funciona, por que então utilizá-la? Por que não ficar com a velha e boa medicina ortodoxa, cujos remédios e técnicas têm eficiência comprovada por milhões de pesquisas? Os autores do livro The Desktop Guide for Complementary and Alternative Medicine (“Guia para Medicina Complementar e Alternativa”, sem tradução brasileira), esboçam algumas respostas para essas perguntas. Eles dividiram os motivos que levam alguém a buscar profissionais da medicina alternativa em dois grupos: os fatores de distanciamento, aqueles que afastam pacientes da medicina ortodoxa, e os fatores de aproximação, os motivos que aproximam pacientes e medicina alternativa.
Parte dos pacientes que buscam a medicina alternativa compartilha a aversão por substâncias químicas ou drogas e privilegiam substâncias naturais em diversos campos de sua vida. “Para essas pessoas, na hora de se vestir, o algodão satisfaz um instinto que o poliéster agride”, diz Bratman. Outro fator de aproximação listado foi a “dimensão espiritual”. A crença na existência de um Deus é bastante comum entre os adeptos da medicina alternativa. “A maior parte de nossos pacientes está ligada a uma força maior, uma alma do Universo”, diz o presidente da
Associação Brasileira de Medicina Complementar (AMC), José Felippe Junior. É bom lembrar que a crença num deus tem sido considerada por pesquisas sérias um fator que favorece a recuperação de doenças graves.
Mas a insatisfação com a medicina ortodoxa também pode estar ligada a fatores que em nada têm a ver com a filosofia de vida do paciente. Pacientes costumam ter uma queixa comum quando o assunto é medicina convencional: acreditam que o médico não lhes dá a devida atenção. A maioria das denúncias encaminhadas aos órgãos que regulamentam o exercício da medicina não se deve a erros médicos e sim à relação médico-paciente. Eles reclamam que o médico não tem tempo suficiente para atendê-los ou que não entendem as explicações sobre os procedimentos usados. “Hoje estamos empenhados em aprimorar essa relação”, diz Clóvis Constantino, presidente do CRM-SP, refletindo uma preocupação crescente de todo o meio médico ocidental
Efeito placebo
Tradicionalmente, o jeito que a medicina ortodoxa arrumou para aprovar ou reprovar um tratamento é um teste muito engenhoso chamado “contraplacebo”. Funciona assim: um médico arruma uma porção de voluntários. Essas cobaias são então divididas em dois grupos. Um dos grupos é tratado com o remédio ou o tratamento que se quer testar. O outro recebe apenas placebo. Placebo, como já foi dito, é um remédio “falso”, sem princípio ativo. Por exemplo, uma cápsula que contenha farinha. Os testes mais confiáveis, além de serem “contraplacebo”, são “duplo-cego”. Ou seja, não é só o paciente que não sabe qual remédio é o de verdade e qual é o placebo. Os médicos que dão o remédio também não sabem. Tudo para diminuir qualquer influência externa. Só o remédio tem que agir.
Tudo muito bem bolado, muito inteligente. Mas a ciência não contava com uma coisa: e se o placebo não for totalmente inócuo? E se a pílula de farinha curar também? Pois é. Parece que é isso que acontece. “Não temos a menor dúvida de que placebo funciona, em média, em 30% dos casos”, escreve Herbert Benson em seu livro Medicina Espiritual. Benson é presidente do Mind/Body Institute, um centro de pesquisa americano focado nas relações entre o corpo e a mente – justamente aquilo que Descartes não previa. Talvez a porcentagem não seja exatamente essa, mas ninguém duvida que o placebo funciona, pelo menos às vezes.
Um exemplo surpreendente foi uma pesquisa realizada pelo cirurgião ortopedista americano Bruce Moseley. O médico testou a eficiência de uma cirurgia para curar artrite no joelho, que consiste em raspar áreas danificadas da cartilagem. No estudo, cinco pacientes foram operados propriamente e cinco receberam aplicações de agulhas em lugares aleatórios. Quatro dos pacientes que passaram pelo tratamento placebo tiveram redução de dor e inchaço e melhoria nos movimentos do joelho.
O placebo pode funcionar a ponto de causar até incômodos. “Sonolência, dor de cabeça, náusea, nervosismo, insônia e prisão de ventre estão entre os efeitos colaterais mais comuns do tratamento com placebo”, diz Benson. Há até um termo para denominar os efeitos colaterais de placebos: nocebo. Benson acredita que a razão para ele é o fato de os participantes de pesquisas serem obrigados a ler um documento de aprovação em que esses possíveis efeitos colaterais estão listados.
O efeito placebo põe em cheque a pretensão de objetividade proposta pela ciência ocidental. Se o próprio placebo cura, então toda a teoria por trás dos testes duplo-cego/contraplacebo muda de perspectiva. Veja por exemplo o caso da homeopatia. Embora várias teorias tenham surgido nos últimos tempos, ninguém ainda entende qual é o processo de cura dessa terapia. A homeopatia é baseada em dois princípios. O primeiro é a “lei dos semelhantes” e diz que uma substância que causa determinado sintoma num paciente saudável pode curar esses mesmos sintomas se ingerida em doses muito pequenas. Assim, como a ferroada de abelha causa dor e inchaço, os homeopatas recomendam um preparado feito a partir do veneno da abelha contra vários tipos de dor e inchaço. O segundo princípio diz que quanto mais diluída a substância, mais potente o remédio. Essa é a chamada “lei das infinitesimais”.
Depois de séculos de pesquisas, esses princípios fazem cada vez menos sentido à luz do que a ciência sabe. A maioria dos cientistas acha que eles são grandes bobagens. Ainda assim, muita gente se cura com homeopatia, por menos que ela faça sentido. Por que será?
Talvez seja apenas um caso clássico de placebo bem-sucedido. Talvez muito do sucesso de várias terapias alternativas se deva ao fato de que a relação com o terapeuta crie condições favoráveis para que o placebo funcione – ao motivar o paciente, dar a ele esperança e inspirar simpatia e confiança. O placebo tem uma característica interessante: só obtém resultados quem acredita no tratamento. Será milagre, então? Não necessariamente. É plausível que essa postura positiva tenha ação sobre o sistema imunológico e favoreça a cura. Um cético como o cientista Romke Bron, que disse ao jornal inglês The Daily Telegraph que “se alguém entrasse em uma farmácia homeopática durante a noite e trocasse as etiquetas dos frascos ninguém notaria”, tem bem menos chances de se curar com esse tipo de remédio.
Ou seja, é importante sim conhecer os princípios de cada tipo de tratamento e saber evitar os charlatões. Mas talvez seja igualmente importante conseguir acreditar no seu terapeuta. Nesse sentido, mil pesquisas provando isso ou aquilo não substituem uma coisa: a confiança que você tem no seu médico, seja ele ortodoxo ou alternativo.
Sentir-se bem
Sair por aí dizendo que a medicina convencional está completamente equivocada e não serve para nada é perda de tempo – e demonstração de ignorância. O escritor de ciência americano Stephen Jay Gould, morto em 2002, tinha uma sugestão para aqueles que acham que a medicina é inútil: que eles visitem algum cemitério antigo e reparem na quantidade de lápides pequenas, uma ao lado da outra. É inegável que a mortalidade infantil despencou com o avanço da ciência e que ela é muito menor nas regiões onde há melhores cuidados médicos. Ninguém em sã consciência pode negar os avanços trazidos pelos antibióticos, ou pelas vacinas, por mais imperfeitos que tanto uns quanto as outras sejam. É óbvio que a medicina derrotou doenças e espalhou saúde – basta saber ler estatísticas para perceber isso.
Mas também é inegável que nem todo mundo se dá por satisfeito com o que a medicina oferece. Desde que o mundo é mundo, as pessoas vão aos “médicos” (curandeiros, pajés, xamãs…) para falar de suas ansiedades, suas dores e obter algum conforto – nem sempre a cura. Essas coisas ajudam o sujeito a sentir-se bem. “E ninguém discorda do fato de que se sentir bem é bom para a saúde”, diz Bron, aquele mesmo que acha que não há problema algum em trocar os rótulos dos remédios homeopáticos. Talvez tenha sido esse justamente o ponto em que a medicina ortodoxa errou mais longe. Ou alguém aí acha os hospitais agradáveis? A ciência tem pela frente uma dupla tarefa das mais duras. Por um lado, há que se entender os reais méritos das terapias alternativas, para que elas deixem de fazer falsas promessas. Por outro, ela precisa corrigir seu rumo e retomar o ideal de Hipócrates. E, nesse ponto, talvez algumas técnicas alternativas possam servir de inspiração.

Cada uma é uma
Colocar no mesmo barco todas as técnicas ditas “alternativas” é um grande erro. Algumas delas são amplamente reconhecidas, sobre outras há quase certeza da ineficácia. Conheça as mais famosas e saiba o que a ciência pensa delas
Acupuntura
O que é – Uma das técnicas da medicina tradicional chinesa, a acupuntura consiste na aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo. Sua base filosófica indica que esses pontos afetam os diferentes órgãos e estão localizados sobre canais de energia (chamados meridianos) que se espalham pelo corpo
O que a ciência acha – Sabe-se que os pontos têm relação com o sistema nervoso – e o sistema nervoso influencia todo o corpo. Mas cientista nenhum encontrou os tais canais de energia. A técnica não costuma oferecer resultados a curto prazo, mas revelou-se eficiente contra efeitos colaterais de remédios, enjôos, doenças respiratórias, dores e problemas de pressão
Aromaterapia
O que é – Utiliza óleos essenciais de folhas, flores ou madeira para amenizar sintomas e melhorar o bem-estar. Os óleos podem ser inalados, queimados ou espalhados pelo corpo
O que a ciência acha – A idéia de que cheiros agradáveis podem liberar hormônios que causam bem-estar até faz sentido para a ciência e alguns estudos mostram um leve efeito calmante da terapia. Daí a acreditar que eles curem doenças, porém, há uma distância
Cromoterapia
O que é – Baseia-se na idéia de que cores têm efeito curativo abrangente. Os tratamentos envolvem alimentação, modo de se vestir, relação com o ambiente, além da visualização de cores para efeito terapêutico
O que a ciência acha – Não há qualquer evidência de eficácia. De forma alguma deve substituir o tratamento convencional. Mas a cromoterapia pode trazer bem-estar – e bem-estar é bom para a saúde
Florais
O que é – São essências florais diluídas em conhaque. Os mais conhecidos, os florais de Bach, foram preparados pelo médico inglês Edward Bach, ao final do século 19, e são indicados de acordo com a personalidade de cada paciente, prometendo curar diversas doenças
O que a ciência acha – No máximo, pelo que se sabe, funcionam tão bem quanto o placebo. Não podem substituir o uso de medicamentos ortodoxos. Podem representar uma fonte de bem-estar, mas é perigoso acreditar que eles façam o que prometem fazer: curar doenças
Fitoterapia
O que é – Consiste na manipulação de plantas e ervas para a cura de doenças e redução dos sintomas. Prega que as plantas devem ser consumidas integralmente e não combinadas a substâncias químicas que realçam o efeito do princípio ativo, como na medicina ortodoxa
O que a ciência acha – A idéia de que plantas curem faz todo sentido. Praticamente todos os remédios da medicina ortodoxa têm seus princípios ativos retirados de plantas ou de outros seres vivos. E é realmente saudável procurar por substâncias benéficas, em pequenas doses, na alimentação – o que ajuda a evitar efeitos colaterais causados por doses grandes demais
Homeopatia
O que é – Inventada no século 18, é uma especialidade médica no Brasil, mas ainda não foi reconhecida como tal em países com tradição em medicina alternativa, como Canadá e Estados Unidos
O que a ciência acha – Muito utilizada contra doenças crônicas como alergias, asma, rinite e enxaqueca, ainda não comprovou eficiência além do placebo nesses tratamentos. A ciência ignora o modo pelo qual age, mas reconhece alguns resultados. Pode ser o caso mais bem-sucedido de manipulação de placebo
Iridologia
O que é – Os praticantes da técnica afirmam que podem oferecer um diagnóstico físico, psicológico e emocional a partir da análise da íris
O que a ciência acha – Não tem validade científica. A tese de que males físicos se reflitam nos olhos não é absurda. Mas determinar o estado de saúde de alguém tendo como base apenas isso pode gerar diagnósticos incompletos, o que é perigoso
Naturopatia
O que é – Motivada pelos ideais de “volta à natureza”, originou-se no século 19 como um fenômeno emocional e espiritual para melhorar a saúde geral do corpo. Prega, entre outras coisas, que alimentos crus são mais bem aproveitados pelo organismo
O que a ciência acha – Muitas das teorias divulgadas pela naturopatia fazem sentido aos ouvidos da ciência. No entanto, ela tende a misturar teorias plausíveis com outras bem menos fáceis de serem assimiladas pela ciência – como a sugestão de que prisão de ventre cause auto-intoxicação
Ortomolecular
O que é – Técnica criada por Linus Pauling, Nobel de Química e da Paz, que emprega o uso de vitaminas, aminoácidos e minerais em quantidades superiores àquelas capazes de serem absorvidas pelo corpo. O diagnóstico é feito a partir da análise de um fio de cabelo
O que a ciência acha – Com base em pesquisas, o teste do fio de cabelo foi considerado sem validade científica por órgãos reguladores
Reflexologia
O que é – Propõe que todos os órgãos internos do corpo têm pontos de reflexo no pé, na orelha, no nariz e outras partes. Acredita que a manipulação desses pontos pode melhorar o fluxo de energia e, portanto, curar sintomas em certos órgãos
O que a ciência acha – Há bem poucos estudos rigorosos sobre a técnica e os que existem não demonstram que a reflexologia tenha efeitos terapêuticos específicos
Reiki
O que é – Rei significa “universal” e Ki, “energia”. Reiki portanto é a energia do Universo que poderia ser transmitida ao paciente por meio da impostação de mãos do praticante. A terapia vê a doença como um desequilíbrio energético do corpo
O que a ciência acha – Não existe comprovação científica para a ação curativa dessa técnica. Mas a terapia pode trazer benefícios ao reduzir a tensão
Radiestesia
O que é – Baseia-se nas vibrações do Universo, do ambiente e dos seres vivos. Sua prática mais difundida prevê uma sessão de perguntas e respostas a um pêndulo de metal que poderia levar ao diagnóstico de doenças
O que a ciência acha – A idéia de que um diagnóstico médico possa ser oferecido por vibrações do corpo ou do ambiente não faz sentido à luz do conhecimento científico. Não há pesquisas consistentes sobre o assunto
Shiatsu
O que é – Atua nos mesmos pontos que a acupuntura, mas usando apenas a pressão dos dedos
O que a ciência acha – A pressão dos dedos, ao contrário da aplicação de agulhas, não causa a liberação dos neurotransmissores que atuam no sistema nervoso, o que joga dúvidas sobre as possibilidades terapêuticas da técnica. Mas seus efeitos redutores de estresse são reconhecidos
Urinoterapia
O que é – Propõe a manipulação da urina do próprio indivíduo para curar diversas doenças. Tem origem, possivelmente, em rituais hindus criados há 4 mil anos
O que a ciência acha – Não há estudos rigorosos sobre a eficiência da técnica, que recebe críticas de diversos setores da comunidade científica. Não deve, de maneira alguma, substituir tratamento convencional
Observação:
A classificação à direita tem um quê de arbitrário. Não pretendemos aqui dizer que uma terapia é melhor que outra. Cada técnica tem seus próprios objetivos e pretensões e as pessoas reagem de modo diferente a tratamentos diferentes. Algumas podem não ter efeito comprovado, mas, ainda assim, fazer bem – por exemplo, ao reduzir o estresse. E a ciência sabe que reduzir o estresse é bom para a saúde.
Para saber mais
Na livraria
O Erro de Descartes – Emoção, Razão e o Cérebro Humano, Antônio Damásio, Companhia das Letras, 1996
Guia Prático da Medicina Alternativa, Steven Bratman, Campus, 1998
Medicinas Alternativas – Os Tratamentos Não Convencionais, Org. Paulo Eiró Gonsalves, Ibrasa, 1996
Medicina Espiritual, Herbert Benson e Marg Stark, Campus, 2003
The Desktop Guide to Complementary and Alternative Medicine, Ernst E., Pittler M.H., Stevinson C., White A.R., Mosby, Reino Unido, 2001
Alternative Healthcare – A Comprehensive Guide, Jack Raso, Prometheus Books, EUA, 1994
Na internet
Relatório do Comitê de Ciência e Tecnologia do Parlamento Inglês, http://www.parliament.the-stationery-office.co.uk/pa/ld199900/ldselect/ldsctech/123/12301.htm
Site de Steven Bratman, que traz um balanço crítico das pesquisas de eficácia, http://www.altmedconsult.com
Associação Brasileira de Medicina Complementar, http://www.medicinacomplementar.com.br
Departamento de Medicina Complementar da Escola Médica Peninsula, http://www.ex.ac.uk/sshs/compmed/

Por: Bárbara Soalheiro e Alceu Chiesorin Nunes
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